14/01/2022 20:47:32 / Editor: José Alfredo | Agência Rede PT Ribeirão

‘Todos precisam da terceira dose para se proteger da variante ômicron. E desfiles de carnaval têm de ser cancelados’

Por Eduardo Maretti, da RBA

São Paulo – Na atual conjuntura da pandemia de covid-19 no Brasil, com o advento da variante ômicron, a prudência e o bom senso recomendam que as grandes cidades, como Rio e São Paulo, cancelem o carnaval de escolas de samba. Antes de pensar em colocar a fantasia e sair pela escola do coração, as pessoas deveriam pensar em se vacinar, porque ainda não se pode prever o rumo da pandemia. “Tive e tenho muita dificuldade de fazer projeções a médio prazo na pandemia. Porque é sempre uma surpresa. Você pode estar num momento muito bom, e daqui a pouco aparece alguma coisa”, alerta a infectologista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Raquel Stucchi, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia.

“Acho que o carnaval de escolas de samba, como foi o de blocos de carnaval, deveria ser cancelado, pelo momento epidemiológico que estamos vivendo. Um gestor não pode permitir que haja aglomeração de um desfile de escola.” A médica ressalva que esta opinião não tem nada a ver com o carnaval em si, como festa popular. “Eu adoro, e desfilei várias vezes, Mas tem aglomeração na ida, na volta, na dispersão… Não estamos num momento que nos permita esse tipo de festa”, adverte ainda.


São Paulo cancela carnaval de rua, mas mantém desfile das escolas. ‘A covid voltou com tudo’


A variante ômicron parece ter demonstrado na África do Sul, onde surgiu, que sua onda se espalha tão rápido quanto arrefece. E que, apesar de se disseminar de maneira impressionante, com cada contaminado infectando outros seis, provocando crescimento exponencial, as pessoas que pegam a Ômicron teriam entre 50% a 70% menos probabilidade de hospitalização.

Mas há outras variáveis, principalmente a vacinação. Dos internados pela covid-19 no Rio de Janeiro, segundo dados divulgados na última quarta-feira (12), 90% não completaram esquema vacinal. Na Grã-Bretanha, 90% dos internados em cuidados intensivos não foram vacinados contra a covid-19.

Alguns especialistas avaliam que a ômicron, com essas características, pode ser o início do fim da pandemia. Raquel Stucchi defende cautela. ”A gente tem esperança de que a ômicron tenha o mesmo comportamento, aqui, que teve na África do Sul. Num prazo de quatro ou cinco semanas, há um aumento expressivo do número de casos e de transmissão, e depois começa a cair”, diz. “Entretanto, como a transmissão é exponencial, a gente fica apreensiva. Num período de sete semanas, dois meses, podemos ter um comprometimento muito grande do sistema de saúde.”

Confira entrevista de Raquel Stucchi à RBA

Não há consenso entre especialistas sobre a ômicron. Alguns dizem que pode significar o fim da pandemia e outros que não se pode afirmar isso. Sua expectativa é otimista ou pessimista?

A gente tem uma esperança que a ômicron tenha o mesmo comportamento, aqui, que teve na África do Sul. Num prazo de quatro ou cinco semanas, há um aumento expressivo do número de casos e de transmissão, e depois começa a cair. Parece que, no Reino Unido, também tende a uma queda de casos. Entretanto, como a transmissão é exponencial, a gente fica apreensiva. Num período de sete semanas, dois meses, podemos ter um comprometimento muito grande do sistema de saúde.

Bolsonaro atrasou vacinação de crianças, como de adultos

A nossa campanha de vacinação é um sucesso, e a gente age como se tivesse mais de 80% da população totalmente vacinada, mas não tem. Se a gente considerar que, para a ômicron, precisa de três doses, a nossa porcentagem de pessoas totalmente vacinadas com três doses acima de 18 anos é muito pequena. Isso nos preocupa que nesse intervalo de sete semanas a gente possa ver momentos muito difíceis, como no ano passado.

A variante se alastra muito rápido, mas o risco de internação é menor, ao que parece…

É verdade que comparativamente com a delta o risco de internação é menor e os casos, menos graves. Mas quando você tem um número muito grande de contaminados, mesmo que a proporção de casos graves seja menor, acaba tendo muita gente.


“Eu gostaria que a variante ômicron realmente fosse a última variante. Mas sou um pouco descrente disso. O tempo para que todo mundo pegue a doença é um tempo que, com o vírus circulando, contribui para o aparecimento de novas variantes”


Fora que fica difícil o atendimento de pessoas que precisam ser atendidas com outras doenças, infarto etc. 

Quadros agudos, como infarto, acabam sendo atendidos. O problema são as doenças que também são graves, mas não de urgência, como investigação de neoplasia de câncer, por exemplo, cirurgia de glaucoma, catarata. Tudo isso é adiado. São pessoas que tiveram tratamento adiado por quase dois anos. O Rio de Janeiro deve suspender cirurgia eletiva novamente. Isso preocupa demais. Sem contar a saúde física e mental dos profissionais da saúde.

Que são os mais sacrificados e os heróis nessa linha de frente há quase dois anos…

É um trabalho que tem uma exigência de equilíbrio emocional e físico muito grande. As perdas são muitas, e você lidar com isso todo dia, emendando horas e horas de trabalho, não é fácil.

A ômicron pode ser o início do fim, como acreditam alguns especialistas?

Eu gostaria que fosse. Que a ômicron realmente fosse a última variante. Mas sou um pouco descrente disso. Quem advoga essa ideia é porque a ômicron vem que nem um arrastão, “não vai ter jeito, todo mundo vai pegar e a gente já fica com proteção”. Mas a gente sabe que o tempo para que todo mundo pegue a doença é um tempo que, com o vírus circulando, contribui para o aparecimento de novas variantes. E a gente não sabe a característica de uma nova variante, se vai ser mais ou menos grave, transmitir mais ou menos.

Segundo, com a ômicron a gente viu que já ter tido covid não te dá proteção, o que acaba com o conceito de imunidade de rebanho, que, por isso, para a covid não acontece. Então acho otimista dizer que ela vai significar o fim da pandemia. Espero que estejam certos e eu, errada.


“Para quem não está totalmente vacinado, a variante ômicron pode dar quadro grave, sim. Quem já está com quatro meses da segunda dose, que faça a terceira. A gente precisa da terceira dose para enfrentar a variante ômicron”


Enfim, começaremos a vacinar as crianças. Mas como sempre, com o governo atrasando a vida das pessoas e comprometendo a saúde, agora das crianças.

Não só atrasando, porque a gente poderia estar com a maioria das crianças vacinadas, se a gente tivesse comprado as vacinas quando a Anvisa autorizou (em dezembro), Mas o governo fez mais do que atrasar novamente, como com os adultos. Fala contra a vacina, questiona a segurança, incita as pessoas a duvidar da necessidade de vacinar as crianças. A gente sabe que a população brasileira gosta de vacina, nossas campanhas de vacinação sempre tiveram êxito, o programa nacional de vacinação é o melhor do mundo.

É a favor da realização de carnaval de escolas de samba?

Não. Porque é sempre uma surpresa. Você pode estar num momento muito bom e daqui a pouco aparece alguma coisa. Acho que o carnaval de escolas de samba, como o de blocos de carnaval, deveria ser cancelado, pelo momento epidemiológico que estamos vivendo. Um gestor não pode permitir que haja aglomeração de um desfile de escolas. Eu adoro, desfilei várias vezes, e tem aglomeração na ida, na volta, na dispersão… Não estamos num momento que permita. Fora o que atrai de pessoas para as cidades com carnaval, os turistas e tudo. Espero que seja cancelado, neste ano.

Gostaria de acrescentar alguma mensagem à população sobre a pandemia?

A gente já viu, nos dados do hemisfério Norte, e nos do Rio de Janeiro, divulgados ontem, que 90% das pessoas internadas não são vacinadas ou têm vacinação incompleta. Para quem não está totalmente vacinado, a ômicron pode dar quadro grave, sim. Quem já está com quatro meses da segunda dose, que faça a terceira. A gente precisa da terceira dose para enfrentar a variante ômicron.


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